27 - UM PRESENTE DE MATSUBA





Num ápice, tudo se desequilibrou, o céu ficou iluminado e tudo se quedou virado ao contrário, sem que nada o fizesse antecipar. O céu era agora o chão, os soldados voaram, e ficaram de cabeça para baixo, e tudo o que ainda era lógico deixou de o ser. As tropas inimigas lançaram um ataque maciço capaz de fazer tremer o próprio vento que provinha do sul,  disparando uma chuva incessante de balas e obuses.
Desde que Eduardo partiu para França, Carlota permanecia os dias escondida no quarto do sótão, quase uma sombra do que tinha sido, apesar de não o saber. Os dois tinham resolvido antecipar a data do casamento também por esse motivo, e o seu amor ficou selado antes da viagem de Damião. No final da festa, subiram até ao quarto branco que tinha sido decorado segundo as instruções de Ana Carlota, até ao mais ínfimo detalhe. Ali seria o seu refúgio, dali se vislumbrava a mais bela das paisagens e ali tinham tudo o que necessitavam para se sentirem verdadeiramente em casa.
O rio passava junto à propriedade, avançando para o lago que depois se espraiava, glorioso, esplendoroso, até à linha do horizonte. As margens verdejantes eram compostas por pequenas colinas e alguns montes circundavam a parte mais ocidental da paisagem. Numa das margens, picos majestosos cobertos por florestas com árvores centenárias erguiam-se e cresciam em semicírculo, descendo até às águas do grande lago onde existiam algumas praias fluviais. Entre elas, uma exuberante vegetação lacustre encontrava-se espalhada em toda a sua extensão, e também algumas casas ali tinham sido construídas. Nas serranias circundantes eram várias as povoações espalhadas pelas encostas que se vislumbravam da varanda do quarto de Ana Carlota, no último piso do solar, junto ao grande torreão.
- Dançámos tanto nessa noite, meu amor! Oh, como eu queria que ela não terminasse.
Ana Carlota era muito corajosa. A família dizia que ela teria herdado esse atributo do pai e do avô paterno, de quem também recebera a força e uma inteligência rara. Era teimosa, muito teimosa e voluntariosa. Possuía uma tenacidade e uma força de vontade ímpares, e a sua beleza e graciosidade pareciam ter saído de um quadro de Botticelli. Ela gostava de observar o lento movimento das nuvens lá no céu e o reflexo que faziam nas tranquilas águas do rio. Abriu as janelas do quarto e as grandes portas da varanda para melhor as observar. Depois deitou-se de costas no chão morno e branco, moldável, tão diferente da vida e do destino que ela não tinha conseguido mudar. O vento soprou e ela entreteve-se a escutar as melodias provocadas por aquele constante vaivém das ramagens. Essa era a música que se habituara a escutar e entender, até que naquele dia outros ruídos a vieram perturbar. Primeiro foram os apitos de muitas sirenes que, estridentes, não paravam de silvar, depois surgiu aquele estranho barulho metálico, profundo e cavernoso, vindo do nada, originado pelas lagartas dos grandes cavalos de ferro a galgar as planícies e os campos de batalha com os seus canhões preparados para disparar. E eis que o rebentamento das bombas se começou a fazer escutar dentro do quarto com grande severidade. Os obuses atravessavam os céus com silvos agudos e ameaçadores, sempre a aumentar de intensidade numa escalada de horror. Os estrondos passaram a ser constantes, acompanhados do barulho dos motores dos aviões de combate que voavam a baixa altitude, e das rajadas de metralhadora que estes disparavam contra os soldados entrincheirados nas fossas escuras e lamacentas que supostamente os deveriam proteger. Depois escutaram-se os gritos, os prantos e preces dos militares, e as ordens bradadas pelos bravos tenentes que os procuravam orientar no meio daquela amálgama de corpos decepados e de cadáveres. Os feridos, cobertos de sangue e de lágrimas, ficaram roucos de tanto gritar. Desorientados, eram quase todos jovens combatentes mal preparados e mal equipados que ainda não tinham percebido estar a fazer parte de uma guerra sem igual.
Ana Carlota jura ter visto Matsuba, o Espírito do rio, a nadar por cima das nuvens. Talvez tenha sido ele quem lhe trouxe estes ruídos da frente de combate, junto às trincheiras da Flandres, para onde Eduardo Damião tinha partido. O rio, lá fora, ficou momentaneamente vermelho, mas não era o sol que nele se encontrava refletido. Tinha-se pintado com as cores da guerra e amedrontava-a como só um sonho mau pode fazer.

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