29 - UM PÉSSIMO DIA DE PESCA





O dia acordou cansado debaixo de uma densa neblina. Os soldados estavam exaustos, mal dormidos, tinham fome, o frio era insuportável e o ar quase irrespirável. Eram todos jovens demais, e juntos murmuravam por um auxílio que tardava em chegar.
Pouco passava das quatro da manhã quando tudo começou. Os bombardeamentos maciços atingiram em cheio os postos de comando dos batalhões, das brigadas e depois a sede do Corpo Expedicionário Português e o Quartel General. O ataque apanhou-os quase de surpresa e não tardou muito até que as comunicações ficassem todas cortadas. Eduardo Damião gritava, como quase todos, gesticulava e mantinha-se esperançoso que aquele ataque fosse apenas mais um raide. Desde o início do mês de março os alemães tinham começado a lançar ataques com maior frequência com o sério propósito de os desmotivar, mas este fogo era bem mais intenso e constante. Damião cedo compreendeu que aquela não seria uma investida igual às outras. Com as transmissões comprometidas, nem os pombos podiam ser utilizados dada a violência do tiroteio. Os estafetas que tentavam a sorte eram atingidos e, para agravar ainda mais a situação, a visibilidade era reduzida pelo espesso nevoeiro que se fazia sentir. O bombardeamento não parava e a intensão dos alemães de derrotar todas as posições de artilharia, impedir o abastecimento e destruir por completo as fortificações da linha da frente que estava entregue aos soldados portugueses, resultava em pleno. Cada unidade ficou entregue à sua sorte, e enquanto o poder de fogo dos germânicos parecia não ter fim, as baterias portuguesas ficavam cada vez mais silenciosas, até que se calaram de vez.
O avanço das tropas inimigas estava para breve. Chegaram em ondas sucessivas depois de atravessarem aquelas terras de ninguém. As baionetas atravessavam os corpos dos soldados, bravos heróis que nada podiam fazer face ao número de alemães que os atacaram.
A divisão britânica recuou ao ter conhecimento do forte ataque inimigo, desprotegendo ainda mais os combatentes portugueses. Abriram-se linhas de separação o que facilitou o avanço alemão até Givenchy, assim como a conquista das primeiras linhas defensivas das tropas aliadas. Com a dispersão das unidades, o caos instalou-se de vez até que as munições acabaram. Muitos morreram e ficaram feridos nesta terrível batalha, milhares foram feitos prisioneiros, e ninguém tinha sequer imaginado que ali tão perto os alemães conseguiram reunir uma proporção de soldados dez vezes maior que os portugueses e britânicos em conjunto.
Cedo aconteceu o recuo das tropas portuguesas, apesar de alguns soldados, por falta de comunicações, não terem sabido da dimensão da tragédia. Eduardo Damião manteve a sua unidade concentrada nas tarefas defensivas quase até ao limite do tolerável. Os combatentes acabaram por ficar entregues à sua sorte, cada um por si, e as munições esgotaram-se ainda antes do meio-dia. A situação era dramática, e nada mas havia a fazer a não ser recuar, assistir à morte da um número cada vez maior dos seus homens e dos animais, e à destruição de todos os abrigos e postos de combate. Damião conseguiu encontrar forças para imaginar como poderia escapar daquele inferno com vida, já que a alegria de viver, essa, tinha sido derrotada logo nos primeiros dias em que se viu confrontado com tamanha loucura e crueldade.
Muitos foram os generais e oficiais de botas luzidias que ficaram escondidos na retaguarda. Abandonaram os soldados nas primeiras linhas defensivas demonstrando que entre eles existia um abismo bem mais profundo que o das trincheiras lamacentas cavadas pelas ordens assinadas por esses “palmípedes”. Damião manteve-se na linha da frente quase até ao fim, e os seus bravos soldados tudo fizeram para o proteger.
- Fuja, meu alferes, de nada vale continuarmos a defender o que já não pode ter salvação. Fuja, os inimigos começaram a avançar e correm apressados pela terra de ninguém!
Eduardo Damião e o soldado José Castanheira foram os últimos combatentes portugueses a abandonar aquele posto de combate, e partiram com as cabeças esvaziadas de querenças. Há muito que os dois tinham deixado de ser quem eram, e fugiram, na mesma direção, agarrando as suas máscaras de gás e as carabinas. Correram como lebres, queriam conseguir deixar para trás a mais impiedosa das guerras. Seguiram velozes sem nunca olhar para trás, de capacetes nas cabeças. Fecharam-se num mundo só deles durante a longa corrida, e quase desfaleceram, deixaram mesmo de escutar, e deixaram de falar, e quase deixaram de ver e de sentir, e uma luz branca intensa, um fulgor ímpar tomou conta daquele lugar perdido, até que um misterioso e gigantesco anzol de metal reluzente surgiu no céu e desceu até junto dos corredores. Naquele instante os dois soldados ficaram tão surpreendidos, que não souberam mais no que acreditar.

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